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16 novembro 2010

Hoje na História – 16 de novembro



16/11/1922 - Nasce José Saramago (foto) em Azinhaga, conselho de Golegã, Portugal, embora o registo oficial mencione o seu nascimento no dia 18 de novembro. Único autor de língua portuguesa a ganhar o Prêmio Nobel, Saramago publicou, entre outros livros, Manual de Pintura e Caligrafia, Levantado do Chão, Memorial do Convento, O Ano da Morte de Ricardo Reis, A Jangada de Pedra", História do Cerco de Lisboa, O Evangelho Segundo Jesus Cristo, Ensaio sobre a Cegueira, Terra do Pecados, Todos os Nomes e Caim.

16/11/1995 - Criado o Dia Internacional da Tolerância pela UNESCO. Os Estados Membros são instados a ressaltar a cada ano o 16 de novembro como o Dia Internacional da Tolerância, mediante a organização de manifestações e de programas especiais destinados a pregar a mensagem da tolerância entre os cidadãos, em cooperação com os estabelecimentos educacionais, as organizações intergovernamentais e não-governamentais e os meios de comunicação.

16/11/1532 – Registrado o Massacre de Cajamarca (eufemisticamente danominado pelos espanhóis como Batalha de Cajamarca). Foi uma emboscada armada pelos espanhóis, liderados por Francisco Pizarro, para capturar o imperador Atahualpa e dominar o Império Inca. A estratégia de Pizzarro para capturar Atahualpa foi convidá-lo para um evento de confraternização na praça de Cajamarca. 

16/11/1889 - Revistos em manchetes, acontecimentos como a Proclamação da República, noticiada pelo Jornal do Brasil com grande alegria em 16 de novembro de 1889, chegam a apresentar certo frescor, como as impressões dos jornalistas da época sobre os fatos que hoje já são história nos livros. 'Viva a República', era o título, impresso sozinho, na página em branco.

16/11/1945 - Criada a UNESCO, fato considerado um marco importante na história da educação mundial. Órgão das Nações Unidas, a UNESCO desenvolve programas educativos a partir de sua sede em Paris, e uma de suas principais criações foi a Declaração dos Direitos do Homem.

15 novembro 2010

ARTIGO


A Maçonaria e a Proclamação da República
Gabriel Campos de Oliveira

A implantação da República foi, sem dúvida, a maior revolução de nossa História, tendo como líderes os IIr.·. Deodoro da Fonseca e Benjamim Constant. A palavra REPÚBLICA, derivada do Latim (res publica), é definida como coisa pública. É o sistema de governo em que um ou vários indivíduos eleitos pelo Povo , exercem, em seu nome, o poder supremo, por um determinado tempo.

A Proclamação da República no Brasil foi uma consequência natural da profunda crise ocorrida no Império Brasileiro, provocada pelas transformações que ocorreram na Sociedade Brasileira, principalmente a partir de 1870, isto é, após o término da Guerra do Paraguai. As questões Militar, Religiosa e da Libertação dos Escravos, conjuntamente, foram as causas da queda do Império e da Proclamação da República, porque o poder do Governo Imperial sustentava-se, principalmente, na Escravidão, no Exército e na Igreja.

A razão que levou o Exército a contrapor-se ao Governo Imperial foi que, apesar de ter saído da Guerra do Paraguai vitorioso, fortalecido e modernizado, continuou a ser uma instituição marginalizada pela aristocracia, que detinha o poder e, por isso, os militares passaram a acreditar que somente o Exército poderia salvar o País da crise econômica, dos problemas sociais, das fraudes eleitorais, da corrupção política, etc. A Igreja, por sua vez, queria sua liberdade, pois, encontrava-se submetida ao domínio Imperial.

Em 1864, a Bula Papal "Syllabus" proibiu os padres de fazerem parte da Maçonaria, proibição que não foi aceita pelo Governo Imperial e, em 1874, o Primeiro-Ministro, Visconde do Rio Branco, Grão-Mestre da Maçonaria, mandou prender os Bispos de Olinda e de Belém do Pará, que mandaram fechar irmandades religiosas de Pernambuco e do Pará, cujos membros não tivessem abandonado a Maçonaria. Contudo, em 1875, quando o Duque de Caxias era Primeiro-Ministro e também membro da Maçonaria, foram aqueles prelados postos em liberdade.
As diversas leis de cunho antiescravista, como a Lei do Ventre Livre (28.09.1871), a Lei dos Sexagenários (28.09.1885) e, finalmente, a Lei Áurea (13.05.1888), foram fatores preponderantes ao enfraquecimento do Império, contribuindo, decisivamente, para acelerar o processo que culminou na Proclamação da República. A atuação dos partidos políticos durante o Segundo Reinado foi bastante intensa e dois deles revezavam-se no poder: o Liberal e o Conservador.

Contudo, em 1868, uma briga havida entre os membros do Partido Liberal provocou uma cisão, dando origem ao Partido Radical, em 1869, o qual, em 1870, publicou um manifesto criticando o fato de o Brasil ser a única Monarquia em todo o continente americano. O manifesto, assinado por Quintino Bocaiúva, Rangel Pestana, Saldanha Marinho e outros expoentes daquela geração, continha uma proposta de descentralização política, típica de uma Federação, isto é, de autonomia das províncias e municípios.

Foi o embrião do Partido Republicano, que, poderosamente, abrigou em suas fileiras, duas fortes correntes de pensamento: os evolucionistas e os revolucionários. Os evolucionistas, representados por Quintino Bocaiúva, acreditavam na não-violência e julgavam que a República aconteceria naturalmente, sem lutas. Os revolucionários, representados por Silva Jardim propunham a luta armada como meio de derrubar o Império.

Os evolucionistas, por suas idéias, aliaram-se aos militares e à aristocracia cafeeira, conseguindo, desse modo, predominar sobre a corrente adversária. Os contatos, encontros e reuniões para articular a derrubada do Império eram feitos às claras. Conspiradores como Benjamim Constant, Deodoro da Fonseca e Sólon Ribeiro agiam abertamente e, no dia 14.11.1889, lançaram o boato de que o Governo Imperial havia mandado prender Deodoro e Benjamim, o que provocou a sublevação de 2 regimentos sediados em São Cristóvão, desencadeando a ação militar do dia seguinte, já sob o comando do Marechal Deodoro da Fonseca, o qual, sem derramamento de sangue, proclamou a República do Brasil.

A segunda metade do século XIX foi pródiga de acontecimentos decisivos na história do Brasil e, assim a sociedade conheceu importantes transformações econômicas, sociais e políticas, que modernizaram o país e o levaram a adotar relações mais dinâmicas de trabalho. Algumas conquistas daquela época, contribuíram para a Proclamação da República: a instituição do trabalho assalariado; intensificação da imigração, principalmente de europeus; abolição da escravidão; novas idéias políticas, com a de Federação; surgimento de novos partidos políticos e o enriquecimento do País com o café.

O primeiro Presidente do Brasil foi o Marechal Manuel Deodoro da Fonseca, nascido em Alagoas, em 1827 e que morreu no Rio de Janeiro em 1892. O primeiro Ministério foi assim constituído: - Campos Sales - Ministro da Justiça; - Floriano Peixoto - Ministro da Guerra; - Eduardo Nandenjkolk - Ministro da Marinha; - Rui Barbosa - Ministro da Fazenda; - Benjamim Constant - Ministro da Instrução Pública; - Francisco Glicéreo - Ministro da Agricultura; - Aristides Lobo - Ministro do Interior e Quintino Bocaiúva - Ministro do Exterior. Também lutaram pela implantação da República personalidades como Prudente de Morais, Saldanha Marinho, Rangel Pestana, Silva Jardim e Francisco Manuel.

Hoje na História - 15 de novembro



15/11/1889 - Proclamação da República no Rio de Janeiro pelo marechal Deodoro da Fonseca (foto). É o começo de um regime democrático no País.

15/11/1989 - Fim do 1º turno das primeiras eleições presidenciais diretas no Brasil: Fernando Collor e Lula vão para o 2º turno.

15/11/1987 - Romenos saem às ruas para protestar contra a miséria e a ditadura.

15/11/1980 - A Alemanha recebe a sua primeira visita do Papa em 200 anos.

15/11/1945 - Canadá, Estados Unidos e Grã-Bretanha se recusam a dar a fórmula da bomba atômica à União Soviética.

15/11/1932 - Congresso Revolucionário, reunindo tenentistas, decide fundar o Partido Socialista Brasileiro.

15/11/1926 - Posse de Washington Luiz como presidente da republica. Ele liberta presos políticos e abranda a censura à imprensa.

15/11/1922 - Artur Bernardes toma posse como presidente da republica. Por causa do descontentamento de sua eleição, governou sob Estado de Sítio.

15/11/1920 - A Liga das Nações se reúne pela primeira vez: 41 países abrem a sua primeira sessão em Genebra.

15/11/1918 - O presidente eleito Rodrigues Alves é a vítima da gripe espanhola no Brasil. Doente, ele não conseguiu tomar posse e seu vice assume.

15/11/1918 - A gripe espanhola ataca a população do Rio de Janeiro, causando 14.459 mortes.

15/11/1910 - Posse do marechal Hermes da Fonseca como presidente da republica. Ele foi eleito para romper com a Política do Café com Leite.

15/11/1906 - Affonso Pena se torna presidente da República. Nilo Peçanha é o seu vice.

15/11/1902 - Rodrigues Alves assume a Presidência do Brasil após vencer Quintino Bocaiúva.

15/11/1895 - Fundado no Rio de Janeiro o Clube de Regatas do Flamengo.

15/11/1831 - Começa em Recife a "novembrada", um levante militar que exige o desarmamento dos portugueses.

OPINIÃO

Condutas Maçônicas
Newton de Alcantara Filho*

Dez condutas maçônicas que, certamente, contribuem positivamente e protegem a nossa Ordem das ações e das influências dos infiltrados:

1) Sirva à instituição e não às pessoas;
2) Quando for divergir, que seja no plano das idéias, propostas e condutas, mas com imparcialidade e honestidade, deixando de lado simpatias ou antipatias pessoais;
3) Chame sempre para você a responsabilidade de proteger e defender aInstituição, não esquecendo que os nossos maiores inimigos, infelizmente, vestem avental;
4) Não se venda por medalhas, títulos, cargos, alfaias e elogios;
5) Quando for indicar um candidato, não seja um corretor de avental;
6) Seja parceiro fiel e leal da verdade e da justiça, assumindo a inteira responsabilidade do que falar, escrever ou fazer;
7) Nunca se esqueça que os exemplos falam mais do que palavras e que os Aprendizes, Companheiros e Mestres mais novos precisam de referências;
8) Não seja Maçom oportunista ou inconsequente, pois baixaria, truculência e contestação infundada e mentirosa não são compatíveis com as nossas virtudes e princípios, e maculam os Templos Maçônicos;
9) Não olhe para um Irmão como se fosse seu superior hierárquico. Porém, respeite as autoridades maçônicas legalmente constituídas, bem como, se for necessário, exija delas - usando os caminhos e meios legais maçônicos - que desempenhem os seus cargos com dignidade, probidade, humildade e competência, pois não estarão fazendo mais do que sua obrigação;
10) Seja um obreiro útil, humilde, dedicado, competente, de atitude e instruído nos augustos mistérios da Arte Real, pois, caso contrário, poderá ser manipulado e inconscientemente prestar serviços para aqueles pseudo maçons que representam a antimaçonaria.
Conclusão - Por entender que a conclusão tem caráter pessoal, convido os Irmãos leitores para que sejam coautores deste artigo, pois, na Maçonaria, entre outras coisas, vim submeter a minha vontade.
*Mestre Instalado

14 novembro 2010

Hoje na História - 14 de novembro



14/11/1945 - Em Nuremberg é aberto um processo contra criminosos de guerra nazistas, julgados no Tribunal de Nuremberg (imagem).

14/11/1940 - Durante a Segunda Guerra Mundial, aviões alemães destroem a cidade inglesa de Coventry.

14/11/1927 - Comitê Central do partido comunista soviético exclui Leon Trotski e Grígori Zinóviev.

14/11/1913 - Publicação do primeiro volume da obra de Marcel Proust “Em Busca do Tempo Perdido”.

14/11/1999 - Morre o compositor e sambista carioca Zé Kéti.

14/11/1972 - Pela primeira vez, o índice da bolsa de valores norte-americana Dow Jones ultrapassa os 1000 pontos fechando em 1003.16.

14/11/1900 - Dr. Landsteiner, um cientista austríaco, descobre que existem diferentes tipos de sangue, e os classifica como A, B e C.

14/11/1959 - Termina greve dos trabalhadores dos coletivos em São Paulo, a mais longa do ano.

14/11/1930 - Decreto cria o Ministério da Educação e Saúde Pública no Brasil.

14/11/1925 - A primeira exposição de pinturas surrealistas é aberta na Galeria Pierre Loeb, em Paris.

14/11/1946 - O escritor alemão Hermann Hesse ganha o Prêmio Nobel de Literatura.

14/11/1915 - Thomas Masarik cria um comitê pela independência da Tchecoslováquia.

Nietzsche e o problema da transcendência imanente - FINAL


Nietzsche e o problema da 
transcendência imanente
Ernst Tugendhat

Finalmente, também o conceito de uma transcendência imanente pode agora adquirir um sentido mais claro. Vimos que em Plessner trata-se de um aprofundamento na maneira como nos relacionamos com objetos. Este aprofundamento adquire um sentido transparente quando o clarificamos por meio do conceito de dar razões. Trata-se agora da tensão entre aparência e verdade ou, na deliberação prática, entre o bem aparente e o bem verdadeiro. A mera opinião seria a aparência e, ao invés desta, se podemos dar razões e sempre melhores razões, passamos de um nível a outro e nisto consiste então a transcendência imanente que parece ser constitutiva do entendimento humano. Há diferentes esferas em que podemos fazer tais passos dando sempre melhores razões e numa conferência anterior falei de dimensões de profundidade. Por outro lado, o que vimos em Plessner, ainda que estruturalmente menos claro, parece que nos leva mais longe. Por exemplo, Plessner aplicou sua estrutura também para a arte.

Neste caso, o aprofundamento não é um aprofundamento relativo a razões. Como, então, entendê-lo? E qual é a conseqüência para a discussão de Nietzsche levando em consideração a concepção que apresentei a partir desta distinção aristotélica? Podemos entender, a partir desta estrutura, o ser do homem na sua totalidade? Ao invés de confrontar-me com estas perguntas diretamente, quero mostrar o que dois pensadores do século XX, que se encontram à margem da filosofia, o psicanalista Erich Fromm e a novelista e filósofa inglesa Iris Murdoch, contribuíram para o problema. Não me importa não chegar a uma posição definitiva. Parece-me mais importante ver o que se pode dizer desde diferentes lados.

Fromm não parte da preocupação dos antropólogos de buscar uma característica central que diferencia o homem dos outros animais, mas parte da pergunta pela felicidade humana e, para isso, baseia-se numa concepção hegeliana. Como se sabe, Hegel tinha desenvolvido uma metafísica segundo a qual todo o ser e, em particular, o ser humano consistia numa síntese de antíteses. Na Fenomenologia do Espírito, Hegel mostra que o homem não chega a satisfazer-se se somente devora ou domina o que encontra. O que pode satisfazê-lo só pode ser algo tão independente quanto ele, quer dizer, algo que tenha também autoconsciência e autonomia. A mera dominação dos outros não leva a uma satisfação. Com isso, Hegel antecipou a refutação de Nietzsche.

Só no espelho do outro e de um outro reconhecido como igualmente autônomo, o homem chega a uma satisfação. Assim se faz a experiência que só na medida em que se afirma o outro esta afirmação vale a pena. Toda a Fenomenologia do Espírito consiste em graus sempre mais complexos desta simetria. É esta concepção que Fromm aplica à psicologia e à pergunta pela felicidade. O  homem encontra-se, segundo Fromm, em dicotomias: vê-se isolado e só pode chegar à felicidade dando ao outro o peso que dá a si próprio. Fromm demonstra este princípio de simetria, particularmente, em dois aspectos do comportamento humano: no entendimento e no amor. 

No amor, forma-se uma convivência, cujo perigo é a unilateralidade: ou cada parte quer dominar a outra, ou uma quer dominar e a outra submeter-se. Somente se cada um tem suficiente peso e, ao mesmo tempo, aceita a igualdade do outro, ambos podem alcançar o bem-estar. Fromm constrói uma concepção análoga para o entendimento: não podemos chegar a entender uma coisa ou uma pessoa, se somos meramente passivos como uma copiadora. Para que nosso entendimento possa penetrar na realidade além da superfície, temos que ativar o nosso poder imaginativo. Mas se, por outro lado, atemo-nos somente à nossa imaginação, perdemos o nosso sentido de realidade. Mais uma vez, o peso e a ativação do sujeito devem estar em correspondência com o peso e o respeito para o objeto. Em ambos os casos, no amor e no entendimento, trata-se de uma ativação de nossas capacidades dirigida pelo respeito diante daquilo que encontramos.

Daí resulta, para Fromm, uma recusa total da concepção nietzschiana. Vimos que Nietzsche confunde poder e potência. Segundo Fromm, relacionar-se simetricamente com as coisas e com as pessoas depende da ativação das próprias potências. Sustenta que o poder, no sentido de domínio-sobre, é uma perversão do poder no sentido de potência ou capacidade de relacionar-se com o mundo; é uma perversão pela unilateralidade da dinâmica: o querer dominar é uma roda que gira em torno de si mesma e os objetos só existem para serem oprimidos.

Fromm não usa a palavra “transcendência”, mas fala da profundidade da realidade das coisas e das pessoas. Qual é a contribuição de Fromm à problemática da transcendência imanente? Primeiro, com sua insistência em que só assim se pode ser feliz deu um passo que ainda faltava: o aspecto da motivação. Segundo ele, o desejo  de poder nasce da incapacidade de um indivíduo para relacionar-se produtivamente com o mundo. Segundo, em Fromm encontramos conceitos que já tínhamos encontrado em Plessner, mas que estão mais claros: a simetria na relação entre sujeito e objeto, peso e contrapeso.

Há, no entanto, uma diferença estrutural entre o que dizem Plessner e Fromm e o que eu tinha desenvolvido a partir de Aristóteles: aqui, na estrutura proposicional, a ênfase está nas razões; ali, há uma estrutura entre o sujeito e o objeto. Estas estruturas parecem ser dimensões de profundidade num sentido diferente. Pode-se ver bem a  diferença no caso do entendimento, que contém ambas as estruturas: seguramente, entendemos um ente melhor, se podemos justificar nossas proposições acerca dele, mas a proposição é algo diferente do ente. Há dimensões de profundidade que se tem que ver com entes, onde não faz sentido falar de razões: por exemplo, na arte, como fala Plessner; igualmente no amor, que é tão importante para Fromm.

Tentemos, então, outro passo e vejamos o que pode contribuir o pensamento de Iris Murdoch. Referir-me-ei a duas conferências que ela deu nos anos 60 e que se encontram num livro sob o título The Sovereignty of the Good (A Soberania do Bom). Na filosofia inglesa, com as suas compartimentalizações, Iris Murdoch aparece como uma figura exótica. Com efeito, encontra-se mais perto da filosofia alemã e francesa do que da inglesa. Ainda que não use o termo, sua preocupação está voltada para a antropologia. Mais uma vez a pergunta é pela essência do ser humano. Iris Murdoch também usa o conceito de transcendência, mas o seu interesse é menos descritivo e mais normativo. A pergunta é: como devemos ser? Seu termo central é “atenção.” Este termo tomou da mística francesa Simone Weil, que a tinha influenciado profundamente. A obrigação central do homem é, segundo Iris Murdoch, desenvolver uma viva atenção para a realidade. "Realidade" é a sua segunda palavra central. Ela usa-o no sentido da verdade das coisas. A verdade nunca está na superfície e, por isso, a atitude da atenção exige esforço contra a preguiça e o egoísmo.

O que Iris Murdoch quer dizer com "atenção" é semelhante ao que Fromm chama de entendimento equilibrado. Uma das preocupações de Murdoch é mostrar que o problema de abrir-se para a realidade das coisas é universal, igualmente constitutivo da estética e da moral. O característico do belo consiste, segundo ela, em ser o único caso em que a profundidade das coisas aparece de maneira espontânea. Muitas vezes, encontramo-nos espontaneamente subjugados pela beleza de uma coisa e nos esquecemos das nossas preocupações egoístas: presenciamos o ser próprio e independente de algo. É uma experiência da profundidade da realidade. É como se dissesse diante de algo belo, em particular diante de uma obra de arte: isso é mais real que o resto da realidade. Assim a palavra "realidade" adquire um sentido comparativo, tal como o tem em Murdoch o conceito correspondente de atenção. Este sentido comparativo de realidade corresponde ao meu conceito de dimensão de profundidade.

Iris Murdoch mantém que também na moral o importante é abrir-se à realidade complexa da situação. Ela diz que uma vez que a entendemos em todos os seus aspectos, a ação correta surge automaticamente. Para mim, o interessante na posição de Murdoch é a maneira como ela universaliza esta atitude de atenção a outras esferas do entendimento e da ação humana através do termo “bom”. O bom é, para ela, muito parecido com o que chama “realidade”. Agora pode-se ver melhor como pode ver a realidade como um comparativo, pois em "bom" o comparativo "melhor" é o primário. Tudo o que fazemos bem, podemos fazê-lo melhor e todo esforço dirigido ao bom, quer dizer, ao melhor, exige um esforço contra a preguiça egoísta. Isso permite Iris Murdoch aplicar sua concepção a arte: todo artista tenta fazer o que faz tão bem como possa e também todo e qualquer empreendimento humano. Iris Murdoch dá como exemplo o estudo da língua russa que está fazendo: ela se vê confrontada com a complexa realidade deste idioma.

Tem que se abrir a esta realidade e abster-se de suas fantasias e preguiças subjetivas. Uma tal atitude demanda virtudes semelhantes às morais: valentia, humildade, veracidade consigo mesmo, respeito. A mesma coisa se poderia dizer de qualquer coisa que uma pessoa aprende. A aprendizagem humana é diferente da aprendizagem de outros animais. O homem aprende a fazer bem alguma coisa e encontra-se, como diz Murdoch, "numa escala de excelência" em que pode avançar mais ou menos. Podemos pensar, por exemplo, na aprendizagem do balé, de um esporte ou de uma profissão. Este avanço na escala de excelência, diz Murdoch, é o sentido não metafísico da idéia de transcendência. Trata-se obviamente de algo muito similar pluralidade de passos para um fundo do qual falei em relação às razões.

Comparemos, primeiro, a posição de Murdoch com a de Nietzsche: enquanto a transcendência imanente e o sentido da vida em Nietzsche consistia num puro crescimento de si próprio, para Murdoch consiste num crescimento no abrir-se para a realidade e na aprendizagem de uma coisa boa. Poderia-se imaginar um debate entre Nietzsche e Iris Murdoch em que Nietzsche diria que todas estas escalas de excelências seriam simplesmente passos de alguém para poder desfrutar-se de si mesmo.

Naturalmente, se falássemos assim, já teríamos abandonado a idéia do poder sobre os outros e teríamos nos conformado com a de egoísmo. Porém, diria Iris Murdoch, ainda que seja certo que o homem encontre satisfação quando faz bem as coisas, é, em primeiro lugar, notável que grande parte da felicidade humana consista precisamente em fazer coisas boas em contraste com a felicidade e satisfação meramente animal. Em segundo lugar, ainda que seja certo que o egoísmo e o prazer estejam presentes também no empenho do homem para o bem -e que má seria a vida do homem se não fosse assim! - o fato de que o egoísmo sobrepõe-se ao empenho de fazer coisas boas e ao sentido da realidade conduz a uma dialética: num caso de conflito, um ser humano encontra-se diante da pergunta se quer dar prioridade à realidade e ao bom, ou ao próprio prazer. 

Um exemplo seria amar uma pessoa. Nietzsche tinha insistido no aspecto possessivo de todo amor e este aspecto é inegável e está igualmente em tudo o que queremos fazer bem. Por outro lado, amar uma pessoa, por exemplo, implica estar impressionado pela profundidade de seu ser -pelo que Iris Murdoch chama a sua realidade- e é isso o que abre a possibilidade (ainda que seja só uma possibilidade) de preferir a felicidade desta pessoa a possuí-la. Há um aforismo em Nietzsche (Humano, Demasiado Humano §57), que diz que ainda quando uma pessoa se sacrifica por outra ou por uma coisa o faz para gozar precisamente isso e que neste caso é o gozo de si proprio uma vez mais a sua única meta. Mas, aqui, o argumento em favor do mero egoísmo perde o sentido porque o altruísmo consiste precisamente em converter em minha meta o fazer algo para alguém.

A contribuição da posição de Iris Murdoch ao problema da transcendência imanente consiste na sua orientação pelo conceito de bom. Já no que citei de Aristóteles estivemos confrontados com o conceito de bom, mas ali o sentido deste conceito parecia restringir-se ao que é bom para alguém. Como Murdoch usa este conceito, todavia, ele aplica-se a tudo o que se pode fazer bem e faz surgir assim um uso que vai além do proposicional e do poder dar razões. Aqui devo lembrar que não pude incluir no meu esquema proposicional a arte. A meta da arte criativa é fazer uma coisa o melhor possível. Aqui o bom e o melhor adquirem um uso adverbial e ainda que este uso inclua também razões isso não parece esgotá-lo. Murdoch aponta a dimensões de profundidade -as dimensões de transcendência imanente- que não são dimensões de razões. 

Não podemos subordinar o melhor sob o conceito de razões, mas podemos fazer o contrário: pode-se subordinar a pergunta por razões à busca pelo melhor, pois aquele que pergunta pelas razões pergunta como deveria ver as coisas, quer dizer, como é melhor vê-las. O artista criador não delibera sobre razões, mas delibera. Ele tem uma meta que aspira, tem um espaço livre no que está criando e quando delibera não pergunta por razões, mas como o poderia fazer melhor. Aparece, então, que o conceito de deliberação é mais amplo que a deliberação sobre razões ou, como fala Platão, o conceito de bom está "além" do de ser.

Agora posso explicar porque considero a antropologia de Heidegger tão errada. Heidegger interpretou o conceito de verdade de tal forma que tinha que perder a dimensão de profundidade e o conceito de bom nem aparece. Conseqüentemente, também desaparece a deliberação e isto resulta no conhecido decisionismo da sua postura existencial. Mais tarde, na serenidade para o ser, isso torna-se simplesmente o contrário. A deliberação é a busca pelo bom juízo e isso desaparece em Heidegger. O que Heidegger chama abertura é, na verdade, uma fechadura -a fechadura das dimensões de profundidade.

A volta de Murdoch às especulações de Platão sobre o bom permite-nos estender o conceito das dimensões de profundidade e entender o que distingue o homem dos outros animais de maneira mais geral. Mas isso não afeta minha especulação acerca de como entender esta característica dos homens na evolução biológica. Disse que me parecia provável que o poder de perguntar por razões desenvolveu-se nos homens a partir do poder perguntar por razões instrumentais e isso se pode manter igualmente a respeito da extensão do conceito de deliberação sobre o que é melhor. Esta maneira de relacionar-se com o mundo e consigo mesmo pode ter surgido com a pergunta pelo que é instrumentalmente melhor e, uma vez que surgiu, esta capacidade tinha que se estender às outras atividades humanas. Esta maneira de ver é mais naturalista que a de Nietzsche sem levar a uma concepção reducionista de entender o ser do homem.

O que devemos entender pela palavra "bom"? Esta palavra refere-se a um comparativo de preferência e que, além disso, tem uma pretensão de objetividade ou pelo menos de intersubjetividade. Quando dizemos que uma coisa é melhor, trata-se, primeiro, de uma preferência e, segundo, de uma preferência da qual se supõe que não é só minha. O conceito de preferência remete a um querer e este o temos em comum com muitos outros animais. O que os outros animais não têm é a capacidade de preferir explicitamente uma coisa ao invés de outra e de compreender-se no interior de uma escala em que uma multiplicidade de coisas ou ações são classificadas como melhores ou piores. Isto equivale a dizer que nos encontramos em dimensões de profundidade.

Ainda devo esclarecer a ambigüidade que consiste na diferença de dimensão de profundidade que apresentei a partir de Aristóteles, -que é a dimensão de deliberação- e a dimensão de profundidade como se apresentou a partir de Plessner e Fromm que é uma dimensão entre sujeito e objeto e que conduzia à idéia de simetria. Acredito que estes dois tipos de dimensões de profundidade são diferentes, mas co-originários. Uma vez que surge uma linguagem proposicional, surge, por um lado, a pergunta por razões e, por outro lado, a objetivação de entes, seja no mundo, seja no sujeito mesmo. 

Com isso surge também algo que de alguma maneira está na base de toda a moral humana: com a consciência de si e com o saber dos outros, que também têm uma consciência de si, aparece necessariamente a idéia de que os outros são como eu e isso significa que junto com o egoísmo surge a possibilidade de um altruísmo explícito que é uma coisa muito diferente do atuar altruísta, segundo regras fixas, que se encontra em outros animais. Ora, se Fromm tem razão, este altruísmo especificamente humano não é uma mera possibilidade abstrata. É, naturalmente, só uma possibilidade, mas uma possibilidade real e, como tal, faz parte do que é para os homens uma vida boa.

TUGENDHAT, E. Nietzsche e o Problema da Transcendência Imanente
Texto escrito em português e revisado por Milene Consenso Tonetto, sendo as correções aprovadas pelo autor.

13 novembro 2010

PARÁBOLA

Viva a morte de cada dia

Um jovem aprendiz foi procurar o seu mestre com um grande temor.
Ele temia a morte.
Chegando ao templo, o aprendiz ajoelhou-se e abriu seu coração:
- Mestre, sinto envergonhado de dizer, mas temo muito a morte. O que devo fazer? Como posso superar esse medo?
O mestre, pacientemente, ajoelhou-se ao lado do discípulo e disse:
- Nós estamos acostumados a ligar a palavra morte apenas à ausência de vida, e isso é um erro. Existem outros tipos de morte, e nós precisamos morrer todo dia.
- Todo dia, mestre? Eu já tenho medo de morrer uma vez, quem dirá todos os dias - interrompeu o aprendiz.
- A morte nada mais é do que uma passagem, uma transformação. Não existe planta sem a morte da semente, não existe embrião sem a morte do óvulo e do esperma, não existe borboleta sem a morte da lagarta, isso é óbvio! A morte nada mais é do que o ponto de partida para o início de algo novo. É a fronteira entre o passado e o futuro.
Vendo que o semblante do aprendiz tinha dado os primeiros sinais de alegria, o mestre continuou sua explicação:
- Se você quer ser um bom universitário, mate dentro de você o secundarista aéreo que acha que ainda tem muito tempo pela frente. Quer ser um bom profissional? Então mate dentro de você o universitário descomprometido que acha que a vida se resume a estudar só o suficiente para fazer as provas. Quer ter um bom relacionamento? Então mate dentro de você o jovem inseguro ou ciumento ou solteiro solto que pensa poder fazer planos sozinho, sem ter de dividir espaços projetos e tempo com mais ninguém. Enfim, todo processo de evolução exige que matemos o nosso "eu" passado, inferior.
- E qual o risco de não agirmos assim? - perguntou o jovem.
- O risco é tentarmos ser duas pessoas ao mesmo tempo, perdendo o nosso foco, comprometendo nossa produtividade e, por fim, prejudicando nosso sucesso. Muitas pessoas não evoluem porque ficam se agarrando ao que eram, não se projetam para o que serão ou desejam ser. Elas querem a nova etapa, sem abrir mão da forma como pensavam ou agiam. Acabam se transformando em projetos inacabados, híbridos, adultos infantilizados. Podemos até agir, às vez, como meninos, de tal forma que não matemos virtudes de criança que também são necessárias a nós, adultos, como: brincadeira, sorriso fácil, vitalidade, criatividade etc. Mas, se quisermos ser adultos, devemos necessariamente matar pensamentos infantis, para passarmos a pensar como adultos. Quer ser alguém (líder, profissional, pai ou mãe, cidadão ou cidadã, amigo ou amiga) melhor e mais evoluído? Então, o que você precisa matar em si ainda hoje para que nasça o ser que você tanto deseja ser? Pense nisso e morra! Mas, não esqueça de nascer melhor ainda!

Do livro: "As mais belas parábolas de todos os tempos vol. II" - Alexandre Rangel (organizador) - Editora Leitura

Hoje na História – 13 de novembro


13/11/1967 - Decreto instituiu o CRUZEIRO NOVO (foto) como unidade monetária transitória, equivalente a um mil cruzeiros antigos.

13/11/1949 - Partido de Salazar consegue todas as cadeiras nas eleições legislativas de Portugal.

13/11/1907 - Primeira decolagem livre de um helicóptero realizada pela fábrica de motores de Paul Cornu. 

13/11/1992 - Oficiais militares tentam, sem sucesso, assassinar o presidente peruano Alberto Fujimori e derrubar o seu governo.

13/11/1955 - Na Argentina, o general Pedro Aramburu é eleito presidente.

13/11/1987 - Os Estados Unidos elevam as taxas sobre importados do Brasil.

13/11/1985 - A erupção do vulcão Nevada Del Ruiz causa a morte de mais de 20.000 pessoas na Colômbia.

13/11/1970 - Hafez al-Assad lidera um golpe de estado militar e sobe ao poder da Síria.

13/11/1958 - Na União Soviética, um novo plano econômico prevê crescimento industrial de 80% em sete anos.

13/11/1956 - Numa vitória histórica de direitos civis, a Corte Suprema norte-americana declara inconstitucional a segregação no transporte público.

13/11/1945 - Na França, Charles De Gaulle é eleito por unanimidade chefe do governo provisório.

13/11/1935 - No Egito, revoltas contra a presença britânica eclodem no país inteiro.

13/11/1934 - O governo italiano determina que é obrigatório o uso de uniformes nas salas de aula.

13/11/1915 - O Haiti se torna um protetorado norte-americano.

Nietzsche e o problema da transcendência imanente - PARTE 2


Nietzsche e o problema da 
transcendência imanente
Ernst Tugendhat

Particularmente, o desafio diante do qual nos encontramos frente a Nietzsche consiste na seguinte pergunta: se estamos de acordo que o homem já não pode estar relacionado com algo supra-sensível, é certo que se tenha que entender o ser do homem como vontade de poder? Se não, qual seria a alternativa? Talvez Nietzsche tivesse razão quando mantinha que prescindindo do sobrenatural, temos que continuar entendendo o ser do homem como indo além, como transcendental neste sentido. Mas Nietzsche poderia estar equivocado quando entendeu esta transcendência imanente como vontade de poder. A tarefa consiste, então, em retomar a problemática da antropologia filosófica e repensá-la dando ênfase precisamente à questão da transcendência imanente.


Em primeiro lugar, então, vou examinar que contribuição a esta problemática pode-se encontrar nos autores alemães que trataram da antropologia filosófica nos anos 20. O que menos contribui foi Heidegger. Ele também fala de transcendência, mas num sentido que considero pouco útil. Naquela época, no início do século XX, tinha aparecido um novo sentido para a palavra "transcendência" na teoria do conhecimento.

O problema parecia ser: como sai o sujeito de si mesmo e chega ao conhecimento de objetos da realidade? Esta relação do sujeito com o objeto foi chamada por alguns epistemólogos alemães daquela época de "transcendência": o sujeito transcende a um objeto. Heidegger indicou -como Husserl já tinha feito- que isso era um falso problema. O sujeito não existe primeiro dentro de si e logo sai para o exterior, mas sempre já está em relação com objetos- intencionalmente, como expressava Husserl. Heidegger rechaça este problema epistemológico, mas não consegue prescindir completamente da terminologia. 

Mantém a expressão "transcendência" para a intencionalidade, para a relação do ser humano com entes e a chama "abertura" (Erschlossenheit), mas estranhamente continua pensando que se tem de perguntar por um fundamento desta abertura. A sua tese é que só por ter uma relação de transcendência, tanto com o futuro quanto com o passado, é que o homem está aberto diante dos entes. Eu considero que esta concepção está igualmente errada como a epistemológica e não esclarece nada.

Além disso, ainda que não fosse assim, este conceito de transcendência imanente não representaria uma alternativa à concepção de Nietzsche. Na minha opinião, a antropologia de Heidegger está profundamente equivocada e isto se deve ao fato de que Heidegger repudiava certos conceitos tradicionais que me parecem indispensáveis. Particularmente, Heidegger acreditou poder substituir o conceito de consciência pelo conceito de abertura que por sua vez nunca definiu. Segundo ele, o que os gregos tinham chamado de lógos- a oração proposicional e com ela a racionalidade- seria algo derivado. Foi essa pretensão de chegar a algo mais originário e de destruir a tradição, que, por um lado, levou a um grande êxito público e, por outro lado, não solucionou nada, pois no final deixou o próprio Heidegger num estado semelhante a de um místico hindu que simplesmente repete a sílaba "om, om".

Considero, hoje, que outros representantes daquela antropologia filosófica –Max Scheler e Helmut Plessner- empreenderam um caminho mais produtivo, apesar de nunca terem chegado muito longe nos detalhes. Particularmente, eles se perguntavam: como se distingue a consciência humana da consciência de outros animais? O que é característico do homem? A resposta deles foi: enquanto que um animal encontra-se no seu meio ambiente e reage a ele, no homem tem lugar uma objetivação: ele objetifica o meio ambiente relacionando-se com as coisas como objetos e também objetifica-se a si próprio. Este pensamento está em evidente contraste com o de Nietzsche e, de outra maneira, também com o de Heidegger. O contraste em relação ao pensamento de Nietzsche deve-se ao fato de que este entende seu naturalismo de uma maneira que a diferença com os outros animais parecia secundária: o homem é movido pelo instinto de poder tanto quanto os outros animais. Em relação ao pensamento de Heidegger porque ele recusou o conceito de objeto e negou-se a entender o homem como um animal não aprovando o método de explicá-lo comparativamente (é isto que torna o conceito de abertura nebuloso).

Que conseqüências tem a objetificação indicada por Scheler e Plessner? Vou aterme aqui somente a Plessner. Ele observa duas coisas. Primeiro, o fato de que o homem TUGENDHAT, E. Nietzsche e o Problema da Transcendência Imanente vê-se na objetificação confrontado com seu ser conduz a uma ruptura obrigando-o a pôr-se em questão: como devo viver?; o que devo fazer? Este aspecto, o pôr-se em questão, não se encontra por diferentes razões nem em Nietzsche e nem em Heidegger.

Segundo, o homem não se encontra em equilíbrio nem consigo próprio, nem com o mundo. Por conseguinte, tem de buscar e criar um equilíbrio. Tem que encontrar e criar coisas que contrabalançam o peso, o desassossego, que sente pela própria existência. Plessner enfatiza, tal como Nietzsche, a significação da arte e da criação para o ser do homem. Mas, enquanto Nietzsche tentou com pouca plausibilidade entender a criação como um broto da fonte puramente subjetiva da vontade de poder, Plessner entendeu-a como uma manifestação de seu desequilíbrio e como busca de contrapesos: o ideal não é que o indivíduo imponha-se ao resto do mundo (dominação), mas o encontro de um equilíbrio entre sujeito e objeto.

Talvez o mais importante em Plessner seja que se estabelece um novo sentido de transcendência imanente. Em Nietzsche, a transcendência imanente consistia numa dinâmica de mero crescimento em direção a um além que nunca deixa de ser puramente subjetivo. Na epistemologia, a transcendência consistia numa relação estática entre sujeito e objeto. De igual maneira, fundamentalmente estática, foi a concepção heideggeriana da transcendência como abertura, a despeito de uma certa dinâmica na sua concepção de abertura enquanto desvelamento. Em Plessner, por outro lado, surge o conceito de transcendência que é tão dinâmico quanto o de Nietzsche, mas que não é unilateralmente subjetivo, nem tampouco consiste numa mera relação sujeito-objeto, mas num aprofundamento desta relação. O sujeito não se pode contentar com a superfície das coisas e, por isso, tem que penetrá-las; tem que aprofundar sua relação com elas. 

Assim, constitui-se um "ir além," uma transcendência que não é como em Nietzsche, uma dinâmica simplesmente do crescimento do poder ou da capacidade do sujeito, nem tampouco, como nos epistemólogos e em Heidegger, uma relação entre sujeito e objeto, entre homem e ser, mas um transcender a aparência e a superfície em direção ao fundo das coisas. Poderia ser, então, que o tipo de consciência que o homem tem permite, em todas as suas relações consigo e com o mundo, dar vários passos para este fundo. Mas como devemos precisamente entender isso?

Plessner contentou-se em fazer meras indicações. Além disso, não acredito que seu ponto de partida, nem o de Scheler- a idéia de objetificação- seja já a estrutura fundamental. E também não me parece satisfatório simplesmente constatar, como fez toda aquela antropologia filosófica, uma estrutura em que o homem distingue-se dos  outros animais sem se perguntar como esta diferença pode ter-se desenvolvido no curso da evolução biológica. Parece necessário, então, encontrar uma nova base para chegar a uma concepção mais satisfatória destes conceitos, para entender melhor a transcendência imanente neste sentido de ter que dar vários e sempre mais passos a um fundo das coisas.

Na realidade, já Aristóteles deu uma resposta à pergunta como se distinguem os homens dos animais, que me parece mais produtiva como fio condutor ao invés do conceito de objetificação. Aristóteles fez isso recorrendo à linguagem. Scheler e Plessner não refletiram sobre a linguagem, enquanto que Heidegger falou muito dela, porém, nada dizendo estruturalmente útil. Aristóteles diz que é característico da linguagem humana possuir uma estrutura proposicional. Enquanto a linguagem dos animais tem uma função segundo a qual reagem ao ambiente, a estrutura predicativoproposicional proporciona ao homem a possibilidade de dizer coisas que são independentes da situação de fala. Com isso, Aristóteles vê conectado o fato de que os homens possam falar do bom e, por conseguinte, do justo.

Esta reflexão encontra-se no início da sua Política. Aristóteles conclui que os homens podem formar agrupamentos políticos só porque podem entender mutuamente que algo é bom para eles. Fazendo um parênteses, quero observar que isso demonstra o erro de uma moda recente que consiste em pensar que a sociologia poderia substituir a antropologia filosófica como filosofia primeira. Não pode fazê-lo porque a maneira como os seres humanos reúnem-se em agrupamentos sociais baseia-se, ao contrário de grupos e sociedades de outros animais, nesta capacidade dos indivíduos de se comunicarem proposicionalmente sobre o bom. Enquanto que uma sociedade de formigas, por exemplo, está organizada à base de estímulos químicos, na sociedade humana os indivíduos unem-se uns com os outros por considerações sobre o bom e, por conseguinte, têm a capacidade de separar-se e de dar razões sobre como se uniram. A sociologia tem esta base antropológica.

Para Aristóteles, tem que se entender a motivação para o bom em contraste com a motivação para o prazer. O que distingue a perspectiva do bom da do prazer é a deliberação. O objeto formal da deliberação prática é o bom, enquanto que o objeto da deliberação teórica é o verdadeiro. A característica do homem é que ele fala e pensa em proposições teóricas e práticas e é, por isso, um ente deliberativo que se relaciona com o bom e o verdadeiro. Nenhuma dessas coisas pode ser encontrada nos outros animais.

Confrontado com uma proposição, seja assertórica, seja imperativa, o homem pode consentir ou negá-la e, por isso, pode também pô-la em dúvida, questioná-la e, por conseguinte, deliberar. Confrontar-se com algo dito ou pensado na modalidade da deliberação significa perguntar por razões (o conceito de dar razões surge aqui) e isso significa perguntar-se pelo que se pode dizer a favor ou contra a asserção ou o imperativo e nesta tomada de distância, neste poder de tomar posição a favor ou contra, o homem está livre, tem opções. Deste modo, junto com a linguagem proposicional, aparecem, necessariamente, vários aspectos que representam diferentes lados da mesma coisa: pergunta, deliberação, razões, liberdade. Quando Aristóteles diz que para o entendimento humano a linguagem proposicional (Aristóteles usa a palavra lógos) é essencial, isso significa que o homem é o animal que pode perguntar por razões, o animal racional, ou seja, o ente deliberativo, livre.

Se, agora, confrontamos isso com o que tínhamos encontrado em Plessner, pareceme que se trata de uma estrutura mais clara e também mais fundamental que a objetificação. Plessner insistia que o homem tem que se pôr em questão por estar objetificando as coisas. Todavia, torna-se muito mais evidente o contrário: a razão por que o homem está objetificando as coisas e também a si próprio é que se relaciona a tudo através de uma linguagem proposicional. Um aspecto dessa linguagem é a relação sujeito-predicado. Conseqüentemente, o homem tem que falar das coisas, tem que objetificá-las e, deste modo, chega a ser também objeto para si próprio. E como tudo o que diz ou pensa pode pô-lo em questão, isso afeta também a relação consigo mesmo.

Agora pode-se entender também por que razão uma espécie com esta característica desenvolveu-se na evolução biológica. É certo que isso é uma matéria onde apenas podemos especular. Empiricamente, não sabemos como nossa espécie desenvolveu-se, mas podemos pelo menos fazer uma hipótese que faça sentido. Se simplesmente se diz que o homem objetifica-se a si mesmo, isso é algo que não se entende, que não se pode explicar funcionalmente. Isto também é assim se se diz, como no existencialismo, que o homem é essencialmente livre. Ser livre seria algo sem função biológica compreensível. 

Mas se dissermos que esta espécie tem a capacidade de perguntar por razões, esta é claramente uma vantagem dentro da evolução, pois  implica num novo nível cognoscitivo que permitiu o desenvolvimento do pensamento instrumental em grande escala. Entende-se que a linguagem instrumental tem tido uma função biológica e, uma vez que surgiu, esta estrutura estendeu-se por toda a vida humana.

Amanhã, publicaremos a última parte.

TUGENDHAT, E. Nietzsche e o Problema da Transcendência Imanente
Texto escrito em português e revisado por Milene Consenso Tonetto, sendo as correções aprovadas pelo autor.

12 novembro 2010

AGENDA MAÇÔNICA - 12/11/2010

Hoje é dia de Sessão Maçônica nas Oficinas abaixo:

Aug:.Resp:.Loj:.Simb:.Clementino Câmara nº 07
Fundada em 04/07/1958 - Rito Escocês Antigo e Aceito 
Sessões às 20h00
Endereço: Rua Forte dos Reis Magos, 1173, Dix-Sept Rosado
CEP 59.062-150 – Natal-RN

Aug:.Resp:.Loj:.Simb:.Acácia do Seridó nº 25
Fundada em 15/08/1998 - Rito Escocês Antigo e Aceito 
Sessões às 19h00
Endereço: Largo do Gargalheiras, s/n
CEP 59.370-000 – Acari-RN



Aug:.Resp:.Loj:.Simb:.Rio Potengi nº 28
Fundada em 15/11/1996 - Rito Escocês Antigo e Aceito 
Sessões às 20h00, nas 2ª e 3ª sextas-feiras do mês
Endereço: Rua Itapagé, 2691, Panatis
CEP 59.112-080 – Natal-RN