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domingo, 20 de setembro de 2009

A lenda e o Rito de York

Ir:. Ambrósio Peters*

O Rito de York é tido tradicionalmente com um rito praticado desde os tempos do Rei Athelstan. Isto ainda não pôde ser comprovado historicamente, embora o confirme a multissecular tradição maçônica. O Livro das Constituições, de 1723, nos dá um forte sinal disto.

No Post Script daquele documento está descrito, de maneira informal, um completo ritual de instalação de uma nova loja. Notemos, num dos parágrafos finais, esta pergunta do grão-mestre ao novo mestre da loja:
"Tu te submetes a estas obrigações como os mestres o vêm fazendo através das eras? E, após receber sua cordial submissão, o grão-mestre através de significativos rituais de acordo com os costumes antigos o empossará..." Logo a seguir, no mesmo parágrafo, o grão-mestre fala em revestir os candidatos empossados com os instrumentos de ofício (1).

Não pode haver demonstração mais clara de que as lojas, mesmo as já transformadas em especulativas ou modernas, continuavam a praticar os rituais das antigas guildas da Maçonaria Operativa. O cuidado em nada revelar nem escrever está evidente no texto do Post Script. Quando este ritual foi assim sumariamente referido as primeiras lojas especulativas ainda não tinham 100 anos. Portanto quando fala de "antigos costumes" está sem nenhuma dúvida falando da Maçonaria Operativa.

Como saber se o rito sugerido no Post Script era o Rito de York, se nada sobre rituais se escrevia nem se imprimia? Sabemos que todos deviam decorá-los (2) e que essa era a primeira das tarefas dos novos irmãos aprendizes. Mas há circunstâncias que nos autorizam a afirmar, com grande margem de segurança, que o ritual dos maçons operativos continuou a ser o ritual das lojas especulativas. A primeira delas é a insistente referência aos antigos costumes sempre que se trata de procedimentos ritualísticos; em segundo lugar modificar esses seculares antigos costumes e pretender substitui-los por procedimentos ritualísticos diferentes sem nada poder escrever seria uma tarefa extremamente difícil, quando não impossível. Pelo mesmo motivo seria impraticável criar novos rituais.

Na união dos maçons "antigos" e "modernos" em 1813 foi oficialmente aprovado o ritual dos antigos como ritual oficial da Grande Loja Unida da Inglaterra e naquele momento recebeu o nome de Rito de Emulação. Além disso se manteve a tradição de nada escrever, e em razão disso não se sabe ao certo o que foi aprovado.

Que outros Rituais haveria além desse, por ocasião da fundação da Grande Loja de Londres, em 1717? Podemos afirmar com segurança que nenhum outro, pois todos os outros ritos hoje conhecidos nasceriam muito depois, provavelmente na época em que as lojas se afastaram das tavernas e cervejarias para terem seus próprios templos, o que aconteceu na segunda metade do século XVIII. Somente em 1969 foi oficialmente impresso pela primeira vez o Rito de Emulação com autorização oficial da Grande Loja Unida da Inglaterra, embora se saiba que nesse ano já havia diversas impressões não oficiais.

Passemos à Lenda de York. De princípio ousamos afirmar que, diante das tantas evidências históricas que confirmam a veracidade do seu conteúdo, deveríamos chamá-la de Tradição de York.
Basicamente nos diz a tradição que houve no ano de 926, na cidade de York, sob o reinado de Athelstan, um Grande Congresso de Maçons, convocado e presidido pelo Príncipe Edwin, sob autorização oficial do rei, e que nessa Assembléia teria sido dado à Maçonaria o seu primeiro Regulamento Geral.

O Manuscrito Régio, de 1389, fala apenas de Athelstan, de uma Grande Assembléia de Maçons e de um Regulamento Geral, e numa suposta referência ao território da Nortúmbria, cuja capital era York.
O Manuscrito de Coke, do início do século XV, o mais antigo a falar da lenda depois do Manuscrito Régio, cita pela primeira vez um filho mais moço de Athelstan a intervir na história da Grande Assembléia, mas sem lhe declinar o nome.

O manuscrito G.L.-I, provavelmente de 1583, introduz pela primeira vez o nome do Príncipe Edwin como filho do Rei Athelstan, dizendo que ele amava a Maçonaria mais do que seu pai. Acrescenta ainda que Edwin foi aceito maçom em Windsor (3) e que recebeu do pai a incumbência de convocar uma assembléia todos os anos. (4) Fala em seguida que o príncipe realizou uma Grande Assembléia em York.

Parece que aqui a Lenda de York passou definitivamente da tradição oral para a tradição escrita da Maçonaria Especulativa.

Isto condiz perfeitamente com as antigas crônicas que dizem que o Rei Athelstan estava continuamente envolvido em reuniões com os nobres de sua corte e daqueles dos reinos submetidos, como também em grandes assembléias que reuniam seus administradores e súditos (5). Convocar e dirigir as assembléias dos numerosos maçons operativos, associados em guildas nas quais havia problemas seria, sem dúvida, uma tarefa difícil para um rei permanentemente ocupado com a organização do seu reino e com suas guerras. Nomear um representante para essas assembléias seria uma providência indispensável.

Há um outro manuscrito conhecido em alguns meios como a Constituição de York, e a respeito dele nos diz Anatoli Oliynik (6) que em 1807 o documento foi traduzido do latim para o inglês, e em 1808 do latim para o alemão pelo Irmão J.A. Schneider, de Altenburg. Esta última tradução foi publicada pelo editor Ir. Krause. Este primeiro editor por vezes dá seu nome ao documento, que por isso é também conhecido como o Manuscrito de Krause. É importante observar que a publicação desse manuscrito está muito próxima à Constituição da Grande Loja Unida da Inglaterra em 1813.

Devemos concluir, a partir disso, que esse último manuscrito foi redigido em latim. Isto situaria o original num momento histórico anterior a 1352, ano da oficialização do inglês medieval como idioma oficial da Inglaterra.

Parece-nos que, em se tratando de um documento para conhecimento geral das guildas dos maçons, ele deveria estar presumivelmente em inglês medieval se o original fosse posterior a 1352, mas não necessariamente, porque o latim continuava a ser o idioma das pessoas cultas. Restar-nos-ia que, estando em latim, ele poderia ser tanto da época dos anglo-saxões, como da época dos normandos, ou contemporâneo do Manuscrito Régio, isto é, do século XIV.

Pensamos assim ter ficado evidente que o Rei Athelstan e o Príncipe Edwin são figuras historicamente conhecidas, que York foi anexada por Athelstan em 927, que o Príncipe Edwin foi condenado ao afogamento em 933, que havia muitas guildas de maçons no reino de Athelstan. Resta então, como assunto importante a tratar, a Grande Assembléia.

*Escritor, Historiador Filosofo e Livre Pensador. 
Membro da A:.R:.L:.S:. Os Templários - GOB, Or:.de Curitiba-PR.
Artigo extraído do Livro Maçonaria História e Filosofia

(1) Constituições de Anderson. GOB. pg 72
(2) Esse é ainda um dos costumes em muitas Grandes Lojas da América co Norte.
(3) O Príncipe Edwin conhecia e amava profundamente a Maçonaria, diz a tradição, mas não era evidentemente um trabalhador construtor. Se ele foi recebido maçom em Windsor, deve ter sido como maçom aceito. Teria sido ele o primeiro maçom aceito na história da Maçonaria?
(4) Ainda hoje a maioria dos grão-mestrados cumpre esse costume convocando uma assembléia anual seguida de banquete.
(5) Aston, S.C. A Worthy Kynge in England Callyd Athelstone, pg 59.
(6) Oliynik, Anatoli. O Rito de York. pg 102

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