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terça-feira, 9 de novembro de 2010

Filosofia - História - Maçonaria - Simbologia


A Cultura Maçônica
Charles Evaldo Boller

O universo material foi criado pelo Grande Arquiteto do Universo a partir do átomo, do quase nada, de uma maneira magistral, assombrosa e até aterradora. Sua arquitetura fundamenta-se numa diversificação tão rica, que leva o entendimento humano à confusão ao ser confrontado com o caos desta aparente desordem. Num esforço de ordenar a sua perturbação, a criatura humana passa a estabelecer referenciais, criar padrões, de tempo, medida, sensibilidade e probabilidade. O resultado deste trabalho o faz movimentar-se no universo, modificar e transformar a obra original, gerando com isto o conhecimento, criados a partir de pensamentos, modelos e referenciais; pois nenhuma verdade lhe é revelada de imediato. É apenas com o acumulo de conhecimentos, pelo uso da razão, da intuição, dos relacionamentos e do discurso que a realidade é entendida. Na intuição intelectual, o critério é a evidência. É aquela ideia clara que se impõem por si só à mente. Na intuição pragmática, é exigido o aporte de um resultado prático. A intuição lógica exige coerência. Em tudo se busca equilibrar razão e intuição, vivência e teoria, concreto e abstrato. E para atingir a certeza da verdade, submete-se o pensamento ao ceticismo, fundamentado na dúvida, na observação e na consideração, ou ao dogmatismo, alicerçado em princípio ou doutrina. A ideia na teoria do conhecimento segue a linha do racionalismo, que tudo submete à razão; ao empirismo, que considera a ideia derivada da experiência sensorial; e do criticismo que tenta equilibrar o racionalismo e o empirismo. Em resumo: alguém é levado a divulgar uma ideia de forma positiva e afirmativa a qual se denomina tese. Outra pessoa interpela este pensamento, o absorve e critica, com base em seu próprio referencial, e faz nova proposta, gera uma segunda ideia, a antítese. Juntando estas duas ideias de forma conciliadora e compositiva gera-se um terceiro pensamento, que é diferente dos dois que lhe deram origem, obtendo-se a síntese. Se o processo for repetido diversas vezes, gera-se um infinito número de ciclos de teses, antíteses e sínteses, que no fluxo do tempo geraram todo o conhecimento que existe.

Longe da confusão para entender as modernas teorias da complexidade, o antigo egípcio desenvolveu o método de transmitir conhecimento através da figura. Baseado na visualização do concreto, o observador desperta para o aprendizado intuitivo intelectual. Mesmo que o aprendiz seja de pouco ou nenhum preparo acadêmico, ele é conduzido a um elevado grau de entendimento abstrato, em tema até complexo, que faz despertar sua intuição sensível, intelectual e inventiva. Os pedagogos conhecem bem a técnica de transmitir conhecimento por associar a ideia a uma imagem real, pois auxilia na compreensão e na memorização, e ao transmitir a informação assim, ela se atualiza automaticamente, haja vista que fica alicerçada na evolução geral de cada geração que a interpreta. Mesmo que a interpretação mude, o símbolo nunca muda, a ideia original, a sua representação gráfica, o invólucro da ideia, acaba preservado ao longo do tempo. E como a evolução do homem ocorre em diversos segmentos, qualquer mudança afeta a maneira de como um símbolo é interpretado. Esta é a importância de nunca alterar ou modificar um símbolo na Maçonaria; por exemplo, trocar a espada do guarda do templo, símbolo da honra, por um fuzil AR-15; seria uma aberração. É a razão de a Maçonaria manter-se sempre atual; mesmo sujeita ao vento da mudança, ela está sempre atualizada porque seus símbolos são mantidos inalterados, mas suas ideias não. E por estranho que num primeiro instante pareça, mesmo que considerada tradicionalista e conservadora, ela é progressista. Tudo está condicionado ao fato de sua simbologia a tornar insensível ao impacto da dinâmica social, tornando-a elegível a projetar-se num futuro bem distante, porque sua simbologia é a mesma, mas a sua interpretação é dinâmica no tempo e adapta-se à herança cultural de cada indivíduo e de cada segmento da história. Convém observar que entre dois símbolos usados pode estar um século e até um milênio de transformação e adaptação histórica, bem como grande espaço geográfico. E de nada adianta tentar alcançar sua origem porque a transformação do pensamento conectada com um símbolo muda permanentemente, a cada instante, de pessoa para pessoa, de cultura para cultura.

Assim como o átomo, a oficina maçônica que para no tempo fica vazia. Se for dinâmica e operosa, reflete a luz do conhecimento e melhora pessoas de valor com sua metodologia baseada em símbolos. A Maçonaria é uma escola de autoconhecimento que promove desenvolvimento moral, ético, e desenvolve qualidades sociais e espirituais. É instituição que tem por objetivo tornar feliz a humanidade pelo amor, pelo aperfeiçoamento dos costumes, pela tolerância, pela igualdade e pelo respeito à autoridade e à religião. Sua alegoria ensinada por símbolos leva o estudante diligente a desenvolver e a elevar a consciência de seu dever na sociedade e na família, constituindo a base da cultura que enriquece sua mente. Está assim equipado para conquistar respeito e admiração do meio social em que está inserido, onde sua ação positiva o faz progredir em sentido financeiro, político, moral, emocional, material, espiritual, em todos os seus valores - o homem se humaniza. E este conhecimento o aperfeiçoa e motiva a tomar seu lugar na sociedade humana para transformá-la em resultado de seu trabalho. Seu preparo diligente o afasta da aviltante ignorância que tanto prejudica a sociedade. Assim equipado, equilibrado, devotado, generoso, livre, igual, praticando a virtude, reprimindo o vício, auxiliando seu irmão, a quem está ligado por laços de amor fraternal, contribuirá para a humanidade se tornar mais pacífica, manterá o povo emancipado e progredirá em todos os sentidos. O amor fraternal é a única possibilidade de solução de todos os problemas da humanidade de forma cabal e é o alicerce da Sublime Instituição.

A Maçonaria não gerou sua própria simbologia e neste sentido tem muito pouco de autêntica. A maioria dos símbolos que usa é copiada, absorvida de outras culturas, de outras linhas de pensamentos e influências. Observado de uma ótica isenta de mitos e ficções, quando se afirma ser ela originária dos tempos em que se construiu o templo em Jerusalém, isto não é verdade! Tudo não passa de lenda para abrilhantar sua mensagem composta de alegorias e símbolos. Entretanto, na dinâmica do tempo, esta alegoria veio a se estabelecer como verdade indiscutível, dogmática, e sabe-se que, por princípio, a ordem maçônica não tem dogmas. É na sua flexibilidade que se baseia sua riqueza cultural. Se não for elástica, tolerante, com certeza quebra, entra em colapso. Ela não é formada por um grupo social que vive isolado, ou que defende dogmas autônomos; ela é resultado da massa da sociedade como um todo, daí sua capacidade de penetração. E ao ser tolerante, admite toda linha de pensamento que venha ao encontro da construção de homens que submetem sua cognição e emoção à sua espiritualidade. Mesmo que todos os símbolos por ela usados para interpretar o universo sejam originários de outras culturas, estes foram introduzidos intencionalmente, com o objetivo de torná-la ágil, elegante e adaptável na linha do tempo.

Podem-se citar algumas fontes principais de onde foi importada a sua cultura:

A Alquimia, com seu caráter altamente místico, gerou farta simbologia da qual a Maçonaria se apropriou. Mas a melhor herança que a ordem obteve desta ultrapassada ciência foi o cultivo do amor fraterno, o "ouro potável" que nada mais é que um coração que extravasa "amor". Foi ciência dedicada principalmente a descobrir uma substância que transmutaria os metais mais comuns em ouro e prata, e a encontrar um meio de prolongar indefinidamente a vida humana. Foi a predecessora da química.

A Arquitetura na Maçonaria é a sua arte básica e a grande preocupação da ordem é a construção do homem completo em todas as suas dimensões: física, emocional e espiritual. Por simbolizar o trabalho planejado, a semelhança de aperfeiçoar o homem através de um trabalho constante e digno, usa a energia do grupo para gerar homens mais fortes e corretos. Na construção destes homens melhorados sempre há algo para fazer, refazer, realizar e aperfeiçoar, tudo no encontro de sua própria felicidade. Fica evidente que na criação do homem completo e livre tudo depende do esforço individual. Esta arte é o resultado do trabalho do arquiteto e mesmo a construção do universo, da Terra, visões e sonhos possuem projetos e definições baseadas na arquitetura.

Na Maçonaria o único uso atual que se faz da Astrologia, a ciência dos astros, a antiga astronomia, é nas manifestações artísticas das abóbadas celestes pintadas nos templos, onde aparecem constelações de estrelas, o sol e a lua, para relaxar a mente e influenciar aos maçons reunidos em seus trabalhos. Significa também que o templo não tem teto, onde, para o Grande Arquiteto do Universo tudo é revelado.

A Maçonaria tentou incluir o conhecimento esotérico hebreu da Caballah em seu meio, porém, sem sucesso. É o ensino judaico da tradição de Jeová. Seria o princípio de toda expressão religiosa, porém, esta apenas serve para alguém que conheça a língua hebraica onde existe uma relação numérica entre o som de cada letra do alfabeto e um número. Para os acidentais existe a Numerologia que pretende fazer algo parecido. Apenas um número reduzido de maçons estudiosos e eruditos dedica-se ao seu estudo, procurando explicar ou dar sustentação mística a procedimentos litúrgicos dos diversos ritos.

O Cristianismo está filosoficamente ligado a alguns ritos da Maçonaria. No Rito Escocês Antigo e Aceito existem graus que remetem aos textos da bíblia judaico-cristã. Não existe rito que não promova o desenvolvimento de espiritualidade; não existe rito de ateus. A absoluta maioria dos ritos é deísta. Existem ritos que se negam em utilizar quaisquer livros da lei de qualquer tipo de religião; não que estes ritos estejam destituídos de formação da espiritualidade, antes, é em respeito às miríades de religiões existentes que não se usa livro da lei de uma religião específica. Adicionalmente, não se discute a essência, aparência, ou manifestação de um deus; tal debate resulta vazio e instiga separações entre os homens; parte-se do princípio de que tal criatura, ou manifestação, é muito elevada para ser discutida ou analisada. Criou-se o conceito de Grande Arquiteto do Universo, ao qual cada maçom aplica sua própria concepção de divindade sem proselitismo, sem impor sua crença aos demais. Isto permite a convivência pacífica de homens das mais diversas confissões religiosas conviverem debaixo de um mesmo teto sem se agredirem.

O Egito contribuiu com sua mitologia e religião com farta simbologia para a Maçonaria, sendo também o berço das primeiras sociedades iniciáticas.

A Geometria é a ciência que provê boa parte de todo o simbolismo da Maçonaria, associada à Arquitetura, arte principal da Ordem. Parte da interpretação dos símbolos geométricos está ligada à Escola Pitagórica, numerologia, alquimia e mestres construtores da idade média. O Grande Arquiteto do Universo é considerado o Grande Geômetra.

Maçonicamente, o Hermetismo é apenas uma referencia histórica à tradição primitiva dos alquimistas. Relaciona-se ao estudo dos arcanos, vulgarmente conhecidos como as lâminas do Tarô, onde está simbolizada toda a cosmogênese e antropogênese da antiguidade. O Hermetismo foi uma "doutrina" esotérica baseada na revelação mística da ciência, ligada Hermes Trismegistos, antigo iniciado do Egito.

Mesmo sem relação com a Maçonaria, o Hinduísmo influi nela com a manifestação da cultura hindu através da filosofia brâmane e vedanta.

As lendas Maçônicas estão alicerçadas nas escrituras da bíblia judaico-cristã e partes dos seus rituais estão ligadas aos princípios religiosos judaicos. O Judaísmo é base do desenvolvimento da religião cristã, e berço da Maçonaria. As escrituras gregas, ou cristãs, estão profundamente ligadas às escrituras hebraicas e à Tora. A Caballah tem como pré-requisito o entendimento da Torá judaica.

Na Maçonaria a Numerologia é estudada nos rituais. É a ciência que define o valor dos números. Avalia o número em seu aspecto qualitativo, mágico e filosófico. Pitágoras foi sua maior expressão e é básica na aritmética e na Caballah.

Uma fraternidade às vezes confundida com a Maçonaria é o rosacrucianismo. Até possui relação com ela, pois o Martinismo é a pratica da Maçonaria nos moldes daquela organização. O que existe é a cultura Rosa Cruz assimilada em alguns dos princípios esotéricos. É uma ordem secreta e esotérica oriunda do intuito de cristianização dos mistérios egípcios. Grande parte dos símbolos usados pela ordem maçônica é oriunda desta vertente. No Rito Escocês Antigo e Aceito existem graus que manifestam claramente esta influência.

A mais poderosa ordem em sentido militar, intelectual, religioso e econômico do século XII foi a dos Templários. Sua finalidade foi a de proteger os peregrinos que se dirigiam ao santo sepulcro. A Maçonaria incorporou grande parte da cultura, e enriqueceu a sua filosofia a partir das heranças culturais deixadas pelos Cavalheiros. Existem especulações que seriam os remanescentes desta ordem a raiz da Maçonaria.

Existem também teorias de que algumas das tradições maçônicas sejam originárias do Zoroastrismo, uma religião, resultado da designação de todos os sucessores de Zaratustra, o grande legislador persa e seu fundador.

Adicionalmente, podem-se listar as seguintes influências na cultura da Maçonaria: Agnosticismo, Antropologia, Aritmética, Arqueologia, Astronomia, Biologia, Chakras, Escultura, Filosofia, Geografia, Gramática, Lógica, Logosofia, Matemática, Mitologia, Música, Ontologia, Pintura, Poesia, Retórica, Sociologia, Teologia, Teosofia, Vedas, e outras.

Muitas são as influências na cultura maçônica, e mesmo tendo acesso a tudo isto, é necessário que ao imergir nesta cultura tão diversa, cada maçom se torne bom, sábio e virtuoso, e para isto, cultura sozinha não é suficiente. É necessário que o homem seja moldado internamente; que se humanize. E isto ele deve desejar ardentemente, deve ser seu principal alvo, senão toda esta cultura é inútil, uma frustrante tentativa de alcançar o vento na corrida. A Maçonaria utiliza-se desta profusa herança multicultural para propiciar ao homem a possibilidade de desenvolver autoconhecimento, o conhece-te a ti mesmo socrático. Ser bom até pode ser característica da própria pessoa, ser virtuoso é o resultado de uma disciplina enérgica, mas a sabedoria, esta exige, além de cultura e conhecimento, colocar em prática tudo o que aprende de forma inteligente e racional para honra e à glória do Grande Arquiteto do Universo.

Fontes
BOUCHER, Jules, A Simbólica Maçônica, Segundo as Regras da Simbólica Esotérica e Tradicional, título original: La Symbolique Maçonnique, tradução: Frederico Ozanam Pessoa de Barros, ISBN 85-315-0625-5, primeira edição, Editora Pensamento Cultrix Ltda., 400 páginas, São Paulo, 1979;
CAMINO, Rizzardo da, Dicionário Maçônico, ISBN 85-7374-251-8, primeira edição, Madras Editora Ltda., 413 páginas, São Paulo, 2001;
FIGUEIREDO, Joaquim Gervásio de, Dicionário de Maçonaria, Seus Mistérios, seus Ritos, sua Filosofia, sua História, quarta edição, Editora Pensamento Cultrix Ltda., 550 páginas, São Paulo, 1989;
PUSCH, Jaime, ABC do Aprendiz, segunda edição, 146 páginas, Tubarão Santa Catarina, 1982.

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